quarta-feira, 14 de abril de 2010

Por favor?



Quando se fala do clima em mais de uma frase, está tudo perdido.
Não transforme o clima em assunto. Não me pergunte tudo bem? Não me diga que é uma pessoa simples, descomplicada e que gosta tanto de frio como de calor, como se isso fosse uma vantagem. Simples? Sabe o que é isso? Eu sei o que é. Você fica na superfície, vive a sua vida “como ela deve ser vivida”, em geral as pessoas simples são as donas da verdade, dizem que “sabem viver”, ou seja, detêm o segredo de como se deve viver. O que em geral envolve o básico desde cedo, o roteiro é seguido à risca, nascer, crescer, reproduzir, e no meio, trabalhar, estudar, casar, matar alguém de tédio, e seguir buscando mais pessoas para continuar matando de tédio. A conversa não anda, o assunto clima ocupa umas cinco frases, depois vem o “como o tempo passou rápido, já estamos em [insira o mês aqui]”, ou “tenho trabalhado tanto”.
Meu Deus! Eu quero ouvir absurdos! Ou então não diga nada! Eu quero um labirinto intrincado de caminhos por onde eu tenha que correr arfando e de onde eu não queira nem sair. E que a sensação esteja presente por dias a fio, com o sol nem nascido ainda e o corpo já latejando, o ar faltando, e a sensação presente ali no background, servindo de combustível para que eu abstraia as conversas sobre o clima.

Obs.: Sim, é uma explosão nuclear na foto. É nesse nível mesmo.

terça-feira, 13 de abril de 2010

O outro lugar



Os dias vão ficando mais frios, o que é cíclico vai se revelando, eu vou observando o desenho da cidade que se altera, as crianças que crescem, as pessoas que vêm e vão, os livros, os filmes, as peças de teatro, a vida vai acontecendo neste nível de “real” em que vamos nos inserindo, recebo más notícias, corro atrás das soluções, resolvo o dia-a-dia, as coisas se deterioram, a administração doméstica, a manutenção dessa vida é trabalhosa.
Mas existe um outro lugar para onde vou em alguns momentos que não são nem milagrosos, nem especiais, nem decisivos, são até bem comuns, se estiver distraída nem percebo que mudei de lugar, mas quando estou lá eu sei. Eu sei porque o endereço é conhecido, determinados acontecimentos são o caminho para ele. Então quando há coisas no ar, já sei que estou embarcando.
Certas coisas, apesar de acontecerem nos mesmos lugares físicos onde vivemos todos os dias, com o mesmo ar que todos respiramos, as mesmas roupas que vestimos para fazer coisas bem pouco sublimes, parecem acontecer em dimensões paralelas. E como dizer o indizível? Qualquer coisa que se diga não traduz jamais o que de fato acontece, que é imaterial, e não se encaixa em nada que tenha nome.
E no entanto, aqui na superfície, continuo fazendo tudo que precisa ser feito, tudo que quero fazer e tudo o que faz parte de ser. Mas há esses momentos vividos nesse outro lugar que acompanham em segundo plano a minha existência. Eles ficam ali, sub-reptícios, secundários, background, subjacentes, como música de fundo. E são eles o real motivo porque suporto tudo o que carrego no “real”. São raros, estranhos, complicados, escorregadios, às vezes uma verdadeira armadilha. Tiram o fôlego e embaçam o rumo a tomar, não existem em outro lugar nem tempo que não seja neles mesmos. E por serem uma forma tão profunda de comunicação com outra pessoa, atestam a própria humanidade, que afinal, é isso mesmo, acho que nascemos para construir pontes para o outro. O material de que são feitas essas pontes é tão obscuro quanto o lugar onde seus alicerces são lançados. Mas a conexão é feita.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Eu não sei dançar



Eu entrei na dança, mas não sei dançar. Eu tenho uma ideia da cadência, mas não sei se há palavras na música. Eu não sei onde pôr os meus pés. Não sei onde é o limite para que eu dance sem pisar em outro pé que não é o meu. É uma dança sem instruções, os pezinhos não estão desenhados no chão para eu seguí-los e não tem professor. Não sei marcar o ritmo, não tenho ouvido musical, nem a minha coordenação motora é muito boa. Não sei onde acaba o meu território e onde começa o de quem está dançando comigo. Não sei mais onde está a linha demarcadora do meu território, aquela que supostamente não é para ser ultrapassada. Mas a vida é cheia de surpresas, boas e ruins. Não sei também qual será a próxima que terei. Então a música se torna irresistível aos meus ouvidos e eu vou dançando mesmo assim, sem saber a música, os passos ou os limites, a linha demarcadora, aquela, vai ficando cada vez mais tênue. E eu nem tenho mais medo.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Quem?


"Out beyond ideas of wrongdoing and rightdoing,
there is a field. I will meet you there." Rumi


Será que alguém consegue chegar lá? Já propus tirar a máscara e os sapatos, quem será capaz de pisar na cabeça dos medos, desafiar os valores estabelecidos, as verdades impostas, anjos com aparência de demônios, o tédio, o mais ou menos, o pode ser, o quase, o ainda não, o hoje não, o preciso pensar, o "mas e se", as cicatrizes que se manifestam no tempo frio, soltar o peso que se arrasta, que se carrega e que se empurra; quem tem coragem de levantar a mão, olhar pela janela, abrir a porta bem escancarada, não só uma frestinha, sair de vermelho na rua, virar as costas e sair andando sem olhar pra trás, desligar o telefone, fechar a porta e devolver a chave, fechar a conta, pegar a mala e ir? Quem aceita a venda nos olhos, o pulo no abismo, abrir a caixa, entrar no labirinto, na floresta, no quarto escuro? Eu sei quem.

Blá, blá, blá



Algumas coisas não devem ser ditas, outras não podem ser ditas, outras não precisam ser ditas. Esta eu simplesmente não sei dizer. Sei que ela vem e logo, a expectativa é mansa, mesmo porque é preciso fôlego para depois da tempestade. E tenho dito.

sábado, 3 de abril de 2010



"Esse movimento ritual de conversa é muito diferente de um exercício mental de convencimento. É uma dança cujo passo principal é deixar seu próprio sapato e, gradativamente, calçar o sapato do outro. No entanto, para fazer isso é imprescindível pisar no chão descalço. O chão, esse que é sagrado, é o lugar intermediário onde nos despimos - descalçamos - de uma identidade pessoal e nos empossamos de uma identidade plena."
Nilton Bonder, in "Tirando os Sapatos"


Todas as manhãs eu acordo e vou pondo gradativamente as máscaras que vou usando ao longo do dia. Que vivemos mascarados é fato, assim como poucos têm consciência disso, e alguns se apegam de tal maneira ao que julgam ser sua verdadeira identidade que, se por um infortúnio essa máscara - que de tão constante amoldou-se ao rosto como se de fato fosse ele - cai, perdem-se totalmente de si mesmos como se sua própria identidade tivesse ruído.
Diferentes ocasiões, diferentes companhias, diferentes máscaras. Não é ruim, quando se sabe que elas são cambiáveis, destacáveis, e quando quem manda nelas somos nós, e não o contrário. Com algumas sinto-me mais à vontade que com outras, mas todas por fim me cansam. Ainda bem que ao final do dia relego-as ao lugar delas e reencontro a mim mesma, a sem máscara, que só eu sei quem é.
E não há solidão maior que essa - somos os únicos que vemos a nós mesmos sem as máscaras, o que muitas vezes é assustador, então esporadicamente durmo mascarada.
Mas eu queria poder, na conversa, tirar a máscara e os sapatos, pisar no solo neutro descalça e de cara limpa. Afinal o que estamos fazendo aqui e que sentido faz tudo se não for através do outro? Descalçar os sapatos sem necessariamente ter que calçar os do outro é desarmante, sem máscara, então, é apavorante. Será que existe alguém com quem eu vá conseguir conversar sem máscara, sem sapatos, sem armas, sem jogos, sem a necessidade da argumentação, do convencimento, só pelo prazer de não estar calçando sapatos nem usando máscara? Será que existe alguém capaz de enxergar essa nossa verdadeira identidade que aparentemente só nós conhecemos?
Existe alguém para quem eu possa dizer, tira os teus sapatos, a tua máscara, pisa neste chão cheio de identidade plena - não minha, não tua, apenas humana - e vem dançar (aqui não vai a pontuação, não consegui concluir se é uma pergunta ou uma afirmação. Mas sei que alguém está ouvindo a mesma música que eu)