quinta-feira, 6 de maio de 2010



Existem muitas coisas que eu definitivamente não sei fazer. Já disse que não sei dançar, e quando tentei, pisei nos pés de quem dançava comigo, invadi territórios e a música saiu de tom. Falando em territórios, tenho dificuldade em ver linhas demarcatórias, e acabo ultrapassando-as sem nem perceber e sem nenhuma intenção. Eu não sei mentir, e isso é de uma inconveniência imensurável. Eu não sei mentir nem para ser gentil, a minha sinceridade é de uma voracidade ingênua, eu sempre acho que ser honesta é a melhor política. Mas não é. As pessoas esperam mentiras brancas, azuis, verdes, querem ser enganadas, ainda que saibam o que está acontecendo. Eu não sei nem fingir que alguma coisa está me agradando, e nem o contrário, não sei desdenhar para fingir o que não quero, o que eu quero eu digo, mas nem sempre as pessoas gostam de ouvir, ou simplesmente não querem. E no entanto, eu tenho nas mãos uma caixa de Pandora. E sou a última pessoa que deveria ter uma. Perdi a chave da minha caixa, e ela fica lá, destrancada, e a qualquer momento alguma coisa sai de dentro dela. Já saíram furacões, enchentes, cataclismas. E também coisas menos arrasadoras, mas nem por isso menos dolorosas, porque o conteúdo da minha caixa de Pandora só se volta contra mim mesma, por mais que pareça que destruiu os arredores, é como um buraco negro, volta para dentro. E ainda assim, eu não me dou ao trabalho de procurar a chave. Mas eu estou tão cansada. Pensei em ceder e aprender a andar no mundo de caixa fechada, adaptar, conformar, encaixar, sorrir e balançar a cabeça, fingir que não vi, que não doeu, que não foi comigo, que existe uma justificativa. Eu quero desistir, mas o sol insiste em nascer todos os dias.

quarta-feira, 28 de abril de 2010



"Circe, Circe, how dare you tell me to treat you with any warmth? You who turned my men to swine in your house and now you hold me here as well - teeming with treachery you lure me to your room to mount your bed, so once I lie there naked you'll unman me, strip away my courage! Mount your bed? Not for all the world. Not until you consent to swear, goddess, a binding oath you'll never plot some new intrigue to harm me!"
[Ah, claro, se ela prometer tudo bem.]

Ter referências. Demoramos muitos anos para construir um acervo cultural individual, leituras que fazemos por obrigação, coisas que vemos porque são esfregadas na cara da gente, coisas que estudamos porque temos que. E obviamente tem as que escolhemos e essas acabam determinando o que nos tornamos. Os arquétipos sempre me fascinaram, vejo-os como matrizes, como se fossem formas de fazer personalidade, moldes de pessoas, e é interessante que até fisicamente, costumamos grudar rótulos nas pessoas até pela aparência, e algumas referências estão tão internalizadas, tão integradas ao imaginário coletivo, que mesmo os que têm menos acesso – seja por falta de oportunidade ou de vontade – usam. Bom é ter consciência, porque torna a vida muito mais rica, mas também tem seu lado obscuro. Hoje não consigo mais pensar simplesmente no que é pelo que é, minhas referências vão aparecendo como se eu estivesse fazendo um download, saber não tem mesmo volta, não existe des-saber, o que é lastimável, porque seria muito útil. Mas os arquétipos. Não tenho a menor pretensão de discutir isso, por falta absoluta de competência e extensão limitada de conhecimento, eu só fico na superfície mesmo e aplico o que me interessa. Andei pensando sobre Ulisses, Circe e Penélope. Na verdade a princípio pensei em todas as mulheres da vida de Ulisses, tão diferentes, deusas, ninfas, feiticeiras, e a mulher com quem ele se casou. Não é à toa que ainda existem as mulheres “para casar”. A mitologia, a religião, o Estado, tudo o que enfia coisas nas cabeças mais desavisadas – e nas nem tão desavisadas mas distraídas – pregam coisas do tipo desde sempre. O que me leva a pensar se tivéssemos realmente liberdade de pensamento sem influências externas de qualquer tipo, que espécie de mundo construiríamos? Sem referências, só o que sai de dentro da cabeça de cada um? Bom, já viajei, isso não vai mesmo nunca ser possível, voltando às mulheres do Ulisses. Toda mulher tem um pouco de cada uma, mas Circe e Penélope são dois opostos que vivemos ao mesmo tempo muitas vezes sem perceber, porque seria óbvio que as duas não podem estar presentes ao mesmo tempo. E se eu soubesse um pouco de psicologia, arriscaria dizer que o único amor perfeito do homem é a mãe, a mulher que não é a mãe é a prostituta, e ele tem que se casar com aquela que se assemelha ao máximo à sua mãe, e seu objetivo final é transformá-la em mãe também, e zás – tédio mortal. Mas eu não sei nada de psicologia e isso é tudo chute. Eu gosto mesmo é da Circe. Algumas vezes – muitas – fui e ainda sou Penélope, acho lindo, tecer e des-tecer, esperar pelo amado à beira do mar olhando o horizonte – mas, como assim? DEZ anos? Quem espera dez anos alguém que está brincando de outra coisa? É linda a idéia, o “conceito”. Mas, né. A Circe se diverte muito mais. Ela transforma homens em porcos! Ela tem a taça do néctar irresistível (ainda que o chato do herói a recuse)! São escolhas, e saber que elas existem dá a oportunidade de fazê-las, acho que este é o ponto, mas não sei nada da formação do imaginário da sociedade ocidental civilizada. Eu só quero mesmo é me divertir. E afinal, a escolha mais interessante ainda é não fazer a escolha, é ficar com elas todas, Penélope, Circe, as sereias, Calipso, porque todas elas moram em nós, todas nos tiram do vazio dos dias que são áridos, e nos situam nos olimpos de viver.

terça-feira, 27 de abril de 2010



A música é antiga, muito. E eu já estive aqui. Hoje pus o primeiro pé em um lugar onde eu já estive algumas vezes, onde já foi escuro, radiante, difícil de sair depois. O lugar é bem familiar, e assistir de fora o entrar nele de novo é inédito, é emocionante, mas extremamente assustador. Porque eu sei aonde estou indo. É um lugar mutável, às vezes caverna, às vezes oásis, abismal, por vezes parece um lugar fechado sem janelas onde as paredes se fecham ou a água vai subindo e me afogando; outras é plácido, é a tranquilidade, é onde eu sempre quis estar, e outras ainda é de onde eu mais quero sair. E eu sabia que a porta ia acabar se abrindo, aliás, eu tenho estado há muito tempo à beira, na soleira, no fio da navalha, no quase, sem coragem de entrar, mas agora que pus o primeiro pé, o vórtice é irresistível.

sábado, 24 de abril de 2010

Perspectivas



Algumas pessoas são assim. Mas de maneiras diferentes. Para algumas realmente só tem água. Provavelmente nem o coqueiro notam. Ahn? é o que mais se ouve delas. Outras até sabem que deve ter alguma coisa a mais, não é possível. Esse tipo se desdobra, umas sabem que tem, mas não têm a menor idéia de onde está. As outras também sabem que tem, mas não querem procurar, porque podem encontrar. Mas uma pena são aquelas que sabem que tem, querem procurar, sabem que vão encontrar, mas estão assustadas demais para finalmente pular e ver a água toda de uma perspectiva diferente - de dentro.

* mais aqui: http://xkcd.com/

sexta-feira, 23 de abril de 2010

I have, and you, for god's sake?



Eu tenho que perguntar. Será que fui só eu que vi? E será que vou ter sempre que perguntar? Eu não podia deixar assim, molhado, mas fingindo que não tinha visto? E antes desta tempestade nem vem a calmaria, eu não vejo a calmaria há tanto, tanto tempo. Sim, eu já vi a chuva em dias com sol, sem sol, com vento, com raios e trovões, ela não me incomoda. O que me incomoda é que chove e, apesar de encharcadas até os ossos, algumas pessoas piscam seus olhos coloridos e continuam me arrastando na correnteza como se fosse um passeio de barco por um canal que passa no meio da cidade. E eu também fico pensando se um dia vai ser possível parar.

quarta-feira, 21 de abril de 2010



Load the ship and set out. No one knows for certain whether the vessel will sink or reach the harbor. Cautious people say, "I'll do nothing until I can be sure". Merchants know better. If you do nothing, you lose. Don't be one of those merchants who won't risk the ocean. - Rumi


O meu navio está sempre carregado e em alto mar. Por mais difícil que seja, eu sou sempre a parte fácil, independentemente do que se trate ou de controvérsias a respeito. Eu relevo, considero, dialogo comigo, me dou argumentos para tentar compreender os motivos, e mesmo que não os ache, ainda assim, contra o óbvio, eu vou navegando. E as coisas vão vindo - desde seasickness até tempestades que ameaçam virar o navio, mas ele vai resistindo. E no entanto meu navio está tão desgastado. Eu estou tão cansada de segurar as velas à unha, de lutar contra a ventania, ou pior, contra a calmaria - esta é a que mais me consome. As tormentas acabo superando, mas as calmarias, pela sua própria natureza, não me deixam fazer nada. E o fato de ir em frente não depender da minha vontade me tira as esperanças de que a melhor decisão é mesmo pôr o navio no mar. Talvez fosse mais fácil e menos doloroso deixar no porto mesmo. Mas. Depois que se sente o gosto de sair para navegar, ainda que sabendo-se dos perigos, ficar no porto não é mais opção. Na verdade para mim nunca existiu essa possibilidade, apesar de eu ter ficado anos atracada, meu olhar sempre esteve além, lá onde só se vê água e céu. E nunca sei direito para onde estou indo, as mudanças de rota têm sido tão frequentes. Apesar dos percalços, dos tubarões que eu mato todos os dias, do cansaço de ser sempre eu a ter o leme na mão, minha escolha já foi feita há muito tempo. Cumpra-se.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Ausências



Não sabia porquê queria escrever mas me faltavam as palavras, agora sei que o que falta não são as palavras, o que falta é aquele algo a mais por trás delas, eu tenho visto tanta coisa, sentido, vivido tantas coisas, novas, diferentes e boas, mas aquele velho sentimento que ficou sem endereço - ou a ausência dele - abre um buraco que me cala, come as minhas palavras, atropela a concatenação das minhas ideias, seca a minha veia dramática, fagocita os meus pensamentos. Não é de todo ruim, porque no auge tudo fica mais intenso, as cores mais fortes, os olhos brilham. Mas há momentos em que eu queria voltar a sentir mais profundamente, algumas camadas abaixo da epiderme, naquele lugar que eu busco nos momentos que mais se assemelham ao caminho que me leva aonde eu já estive. Mas os caminhos ficaram tão acidentados, a jornada tão longa e sem descanso, a água escassa, que acabei pegando um atalho, sem Ariadne pra me ajudar a voltar. E o lugar foge de mim. Mas só quero procurar o caminho de novo se desta vez estiver ensolarado.