domingo, 9 de fevereiro de 2014

Odiar, detestar. não gostar



Me peguei odiando coisas esta semana como nunca. Falei inúmeras vezes odeio isso e odeio aquilo. O mau-humor andava calmo, então notei que é uma característica minha essa de odiar coisas e pessoas que nem nunca vi. Comecei com cantores. Em comentários com amiga, odiei o Tim Maia (um chato), a Elis Regina (a exagerada), a Maria Gadu, que se não fosse apadrinhada pelo Caetano (onde estava a cabeça dele?) eu esfregava a cara dela no chão pra ver se a arrogância dispersava, e bem, como em termos de música eu parei nos anos 80 e depois comecei a odiar todo mundo com raras exceções e sobreviventes, os atuais gritadores jovens internacionais dos quais já ouvi o nome e vi a cara, não odeio porque não dá, só consigo rir, de Justin Bieber, aquela que saiu em 13425678 fotos com a língua de fora mas não lembro o nome, aquela negra escandalosamente linda que apanha do marido, etc. Note-se aqui que não há nenhum preconceito, eu odeio pessoas das mais variadas raças, classes sociais, cores, comprimentos de cabelo e de unha, preferência sexual, aliás, note-se que acho que não odeio nenhum gay, porque eles são muito mais fáceis de amar, amigos leais que são. Me recuso a discutir funk e pagode, que não reconheço como música, obrigada.

E as comidas? Camarão? Lagosta? Aquelas patas e olhos? E todo o resto gosmento que sai do mar? Só gosto de peixe. Eu fui uma comedora compulsiva de lixo, coisas gosmentas pingando, óleo grudado no papel, manchas de condimento pingando na roupa, rótulos com índices de gordura obscenos. Daí meu colesterol me obrigou muito a contragosto a adotar uma alimentação mais saudável e eu fiquei mais chata ainda. Ainda bem que disfarço maravilhosamente bem e finjo que como e bebo com outras pessoas. Mas se eu  sentir cheiro de maracujá seja lá na forma que for caio dormindo. Odeio cair dormindo quando mais quero prestar atenção em alguma coisa.

Odeio que tentem me fazer de boba. Que desrespeitem meu trabalho. Que me desrespeitem porque sou mulher. Que questionem minhas escolhas. Odeio que me dêem ordens (esse é o pior erro EVER). Odeio fala mansa com um punhal escondido. Odeio mentira, falsidade, sorriso amarelo. Odeio quem se vinga, quem se acha superior, quem só reclama da vida.

Daí que concluí que odiar gasta energia demais. Odiar consome, os odiados não estão nem aó pro nosso ódio, os de longe e os de perto, então tem coisas que detesto.

Detesto com todas as forças política, políticagem, tudo que está relacionado a isso, partidos, corrupção e a palhaçada toda que é o país (odeio palhaços, tenho medo deles). Detesto o que se faz com o nosso dinheiro tão difícil de ganhar e não detesto os que votam errado por ignorância, mas por opção de quererem ser ingênuos e acreditarem que não estão vendo o que está acontecendo. Detesto todos os políticos, com exceção do FHC que é meu ídolo-mor, salve, salve, mas porque não gosto do político, mas admiro o intelectual, então dane-se o mundo, FHC é meu ídolo, não me interessa se fez alguma canalhice enquanto governava.

Detesto às vezes ter que sentar e chorar porque nada mais me resta a fazer, detesto ver pessoas que amo partindo, detesto mimimi exagerado, mas respeito o sofrimento alheio, assim como o meu mesmo. Eu me permito chorar e não detesto isso. O que eu detesto é ter que chorar porque as lágrimas têm vida própria e choram na hora errada e onde não deveriam. Eu detesto que minha filha sofra e detesto muito quem a faça sofrer, eu viro leoa na hora e literal e animalescamente parto pra cima com ódio (aqui é ódio mesmo).

Detesto natal, ano novo, papai noel, páscoa, o calendário gregoriano, todas as comemorações dele que são imposições para que a gente saia do nosso eixo. E funciona muito bem. Detesto comprar presentes em datas determinadas, comparecer a cerimônias, fazer de conta, sorrir e acenar, ser hipócrita porque vivo em sociedade e meus pais me deram educação. Por isso na primeira oportunidade solto meus monstros do porão e deixo que eles andem pela casa, porque assim, quando eles precisam sair (e precisam mesmo) o estrago não é tão grande.

Ocorre que aprendi que não precisamos lutar todas as batalhas, podemos escolher, então quero adotar o "não gosto", que é um tanto libertador e não tira a ênfase de nada, apenas é mais calmo, mais sabedor, mais vivido e mais pronto para mudar as coisas para "gosto".

Não gosto mesmo é de ver as injustiças de todos os quilates que são cometidas em grande e em pequena escala no mundo todo, desde matanças em países do outro lado do oceano até o roubo do pobre velhinho que foi buscar sua aposentadoria e foi enganado na fila do banco. Não gosto de mulheres e gays espancados porque gênero e sexo são coisas sagradas e divinas, não motivo de bandalheiras. Não gosto de crianças famintas morrendo aos magotes a cada minuto e fotógrafos tirando fotos delas. Não gosto da geração que passa a vida dentro da tela do telefone e quando acordar vai ter perdido o melhor dos anos que passamos fazendo amigos para a vida toda. Não gosto de quem diz - os homens são todos iguais, ou - as mulheres são complicadas. Somos únicos, especiais, esses clichês só criam mágoas onde deveria existir sementes de amor. Aliás não gosto de clichês mas uso-os o tempo todo, mas não sei escrever mesmo, então não faz diferença. Não gosto de Paulo Coelho. Ele prestou um desfavor à literatura brasileira e à humanidade como um todo. Não posso conceber como Raul trabalhou com ele. Não gosto de religiões quando elas impõem qualquer coisa, seja arrancar a cabeça de alguém ou pagar o dízimo. Não gosto de frio, eu me encolho e tudo me dói. O céu cinza me deixa não gostando de mais coisas.

O que eu gosto mesmo é de me jogar na vida. Nem sempre eu tenho coragem. Mas quando não consigo não gosto.


2 comentários:

Francisco Leite disse...

Acho que odiar, detestar ou não gostar de algo ou pessoas são nossos esportes preferidos. (rsrs)
Mas a vida também é feita de coisas que amamos e gostamos, e são essas que nos fazem felizes. :-D

Grande abraço!

flordelis disse...

Sim, faz parte da diversão :-)