quarta-feira, 20 de julho de 2011

Midnight in Paris


Fui ver e já aviso que aqui tem spoilers.

As "comédias" de WA são as que eu aguento. Porque quando se diz comédia, as pessoas em geral se imaginam rolando de rir no chão, em geral com uma sopa de clichês e pastelão. Sim, assisto essas às vezes, mas a minha paciência dói, principalmente pela total previsibilidade do que acontece e do final.

Allen poderia fazer mais jus à sua fama e também ser menos final-feliz-e-previsível. O filme é lindo, as cenas de Paris são maravilhosas, a idéia é fantástica, mas o final - vou ter que repetir a palavra - previsível. Depois da viagem no tempo, ele escolhe o herói dispensando a noiva frívola para ficar com a mocinha alternativa que também gostava de Paris na chuva.

Mas o final feliz é totalmente perdoável face a todos os personagens que aparecem e são magnificamente retratados. Dali e os rinocerontes está impagável. Eu amo o absurdo. O impossível. O improvável. O filme não poderia ser mais apetitoso, recheado de tudo isso.

Mas o que me fez pensar foi o sentimento que Gil compartilha com Adrianna. A nostalgia do tempo não vivido. Eu já tive isso, acho que todos tivemos. Eles o tinham exacerbadamente, Adrianna desvanece no tempo até. Mas o que é interessante é como buscamos o que não temos. Gil tinha uma vida confortável, fazia filmes que ele mesmo considerava ridículos mas era regiamente pago para isso. Uma noiva que ele considerava atraente e que ele provavelmente achava que era suficiente. Mas tinha a alma inquieta, então inventa de escrever o livro que Gertrude Stein vai acabar lendo e fazendo a crítica (!). Seu personagem era ele mesmo, e ele tão ensimesmado nem nota que a noiva o trai, alguém precisou ler o livro para dizer a ele.

E como ele vamos buscando, muitas vezes uma coisa que não vamos nunca encontrar, voltar no tempo é só para Gil e Adrianna. Ele acaba tendo a epifania, ela não. Escolhas. Mas será que, como Gil diz, depois que você viver o suficiente na Belle Epoque, vai se cansar dela e querer voltar mais, viver outra coisa que já passou?

Por que nos falta tanto? Por que procuramos no passado, no futuro, na droga, no álcool, no trabalho, na dedicação às causas perdidas, em outro país, em outra cidade, em outro mundo? De quem fugimos ou atrás de quem corremos? De quem poderíamos ter sido ou que poderíamos vir a ser?

É corrente que a cabeça vazia é a oficina do diabo. Eu discordo. Acho que a cabeça cheia demais é que é. Os pensamentos nos engolem, lá dentro da cabeça voltamos no tempo, vamos a lugares que não existem e vemos coisas que não aconteceram, e vivemos como se fossem reais. E por mais que nos provem que não são, é como Gil - ele se encontrava com Fitzgerald, Stein e Dali, sim, quem pode dizer que não? Ah, a insanidade. A exata medida da insanidade sã.

Ou podemos simplesmente fazer a escolha de Adrianna. A mais simples. A menos trabalhosa. Até segunda ordem. A insatisfação humana não tem fim.

Um comentário:

Luci disse...

a nostalgia do tempo não vivido...
então.